Após abandonar emprego em multinacional, jovem investe na venda de biquínis em Poços de Caldas

25 julho 2019

Por Gabriela Bandeira — Poços de Caldas, MG

Quando Marília Gabriela Ferreira entra no trabalho com as mãos carregadas de sacolas ou caixas, as colegas, que também são suas clientes mais fiéis já sabem: tem biquínis novos à venda. A ideia de vender roupas de praia e piscina surgiu da necessidade de complementar a renda após a jovem de 23 anos abandonar o emprego em uma multinacional e ir trabalhar numa empresa onde recebia a metade do salário antigo.
“No primeiro mês, quando olhei para o extrato bancário, tive vontade de chorar. Pensei que não ia dar conta de pagar meu carro. E comecei a pensar em como podia ganhar um dinheiro extra”, conta.
Como não tinha verba, começou vendendo as próprias roupas usadas, e algumas que comprava em brechós para revender. Após juntar R$ 500, não teve dúvidas - viajou cerca de 90 quilômetros de Poços de Caldas a Juruaia (MG) e fez a primeira compra. O dinheiro foi todo investido nos biquínis, que vendeu em questão de dias.
Engana-se quem pensa que é tudo feito na base do amadorismo. A loja, que por enquanto é virtual, tem nome e logomarca. Os produtos são todos etiquetados com a marca e possuem dicas de lavagem e conservação. Mesmo estando no mercado há menos de um ano, Marília tem mente de empreendedora e bate de frente com as concorrentes.

Trajetória

A fala e a trajetória de Marília confirmam: nada em sua vida veio fácil. Trabalhando desde os 16, chegou a exercer um papel importante dentro de uma multinacional por mais de quatro anos. O pedido de demissão veio em razão de uma doença autoimune que adquiriu. “Estava muito estressada com a rotina. Trabalhava mais de 12 horas por dia, não tinha descanso nem aos sábados, domingos ou feriados. De repente, percebi um monte de manchas na minha pele, quando fui ao médico, descobri que era púrpura”, explica.
Após a demissão, veio o novo trabalho, na área administrativa de uma empresa. O carro recém-comprado foi o principal motivo para investir na renda extra. Nem mesmo a escolha do produto que venderia foi coincidência.
Modelos de biquinis fazem sucesso entre colegas de trabalho de Marília — Foto: Arquivo Pessoal / Maríl
Marília sempre foi amante da natureza e, principalmente, das praias. Pensando nisso enquanto conversava com uma amiga, decidiu arriscar. De início, os produtos seriam importados da China, mas ela encontrou um local mais perto para as compras: Juruaia (MG), cidade conhecida pela qualidade e preço acessível de peças de moda íntima, praia e fitness.
As próprias colegas de trabalho acabaram se tornando as clientes. Mas as vendas também acontecem online. “O pessoal que me conhece, acaba sempre me marcando nas redes sociais nas postagens de pessoas que procuram biquínis e maiôs”, conta.

Sem chefes

“Não ter mais chefe”, essa é a resposta da jovem sempre que perguntam qual o próximo passo a tomar. Já existe até um planejamento para que, em dezembro deste ano, ela abandone o atual emprego e invista no novo negócio em tempo integral.
Com a loja virtual no ar, ainda pensa em abrir uma loja física. Investir na venda de biquínis em uma das cidades mais frias do Sul de Minas e com concorrentes não a assusta nem um pouco. Pelo contrário, Marília tem estratégias bem pensadas para vender bem.
“Estamos chegando no inverno, e a praia mais perto fica em Ubatuba (SP). Para conseguir vender biquínis nessa época, eu faço promoções dos modelos que consigo pelos preços mais baratos e estou sempre de olho na concorrência”, analisa.
Os estudos diários e as experiências que adquiriu servem ainda como incentivo para quem deseja seguir o mesmo caminho. “É necessário estar em constante aprendizado e prática. Mas é preciso muita coragem para abandonar a estabilidade e assumir um negócio incerto”, finaliza.

Mercado de atacado e varejo em Juruaia

Em Juruaia (MG), os empresários e donos de confecção estão acostumados com vendas a varejo. Administradora de uma confecção, Simone Marques Mariano, já produziu uma pesquisa que mostra que mais de 90% dos compradores são revendedores. “Apenas 5% das vendas representam o consumidor final, aquele que vem até a loja e compra as peças para uso próprio. Os outros 95% são revenda”, revela.
Para atender a demanda, a loja conta ainda com consultoras que trabalham no local e também respondem possíveis compradores da loja online, onde as vendas já são cerca de 80% do lucro mensal.

Felinju

Juruaia é capital da lingerie e um dos maiores polos do país no mercado. Anualmente, são cerca de 20 milhões de peças confeccionadas, além de 5 mil empregos gerados. A cidade ainda exporta lingeries para outros nove países: Holanda, Bolívia, Estados Unidos, Portugal, Emirados Árabes, Argentina, Austrália, Alemanha e Canadá.
Organizada pela Associação Comercial e Industrial de Juruaia (Aciju), a Feira de Moda e Lingerie de Juruaia (Felinju) acontece de 28 de abril a 1º de maio no Centro de Exposições da cidade e deve atrair mais de 25 mil pessoas.
Diretor da Aciju, José Antônio da Silva aposta em um crescimento de 15% a 20% nas vendas, com relação ao ano passado. “Existe certo otimismo no cenário nacional de que a crise já tenha ficado para trás e, por isso, as perspectivas são positivas para este ano”, finaliza.
Não ter mais chefe é o objetivo de Marília, que hoje sobrevive da venda de biquinis — Foto: Gabriela BandeiraNão ter mais chefe é o objetivo de Marília, que hoje sobrevive da venda de biquinis — Foto: Gabriela Bandeira
Não ter mais chefe é o objetivo de Marília, que hoje sobrevive da venda de biquinis — Foto: Gabriela Bandeira

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